24 de maio de 2007

as casas e o sr. V

O Sr.V gostava de casas como gostava de livros. "na verdade" dizia ele "casas e livros são exactamente a mesma coisa."As janelas são as lombadas e aquilo que se consegue espreitar, por entre os cortinados, o primeiro parágrafo de um capítulo.Se as primeiras frases nos entusiasmam, fechamos o livro e abrimos os olhos.Começamos a imaginar quem vive lá dentro sem nunca sair da cabeça do autor."

"Nem a literatura é só literatura!Tudo é psique!" escreveu o Sr. V, acrescentando logo de seguida:"
nota 1: relacionar, em ocasião posterior, a palavra psique e a palavra psiché - esse móvel intimo de senhora que faz tanto tempo que não vejo impresso numa página e que fica bem em qualquer habitação distinta" e voltou a fechar o caderno, olhos postos nas chaminés e nas antenas.

"Gosto tanto de janelas iluminadas como de prateleiras arrumadas. Uma pessoa com bom ouvido topa logo, pela arrumação que se vê assim do lado de fora, o tipo de conversas que se tem lá dentro"
"AH! " soltou. "Os livros nas prateleiras são todos bons vizinhos. Hmm, isto das vizinhanças explica porque é que não me gusta a ordem alfabética adoptada nas livrarias. Sei bem que uns autores devem ficar juntinhos a outros, seja qual for a letra de baptismo que lhes calhou em sorte. "

Deu mais uns passos, espreitou aquela varanda. "Um pe ni co numa varanda? Mas porquê? "

21 de maio de 2007

a primeira página do caderno novo

"respostas para a mesma pergunta, há sempre muitas" - escreveu o Sr.V, na primeira página do seu caderno vermelho. " E que belo caderno é este" acrescentou, algumas linhas abaixo, com aquela letra desenhada que convém às manchetes caligráficas.

Escrever a primeira página de um caderno é como aceitar, com fervor matinal, a possibilidade de realizar todos os objectivos, e respectivas fórmulas de acção, enunciadas na noite de são silvestre.

"não acredito numa escrita que simplifique coisa nenhuma." Registou, com caracteres mais soltos, o dito senhor. " Mas sim no poder da escrita que mostra". E, concentrando, agora, toda a sua força na ponta da caneta, na bolinha azul corrente da sua esferografica, sublinhou estas palavras, com o pulso já descontraído:

"mais ainda," (estou tão certo disto como da fome, pensou) " no poder que a confusão das palavras tem de de mon strar, justificando assim as nossas próprias opções de vida."

" não irei contar cá a minha vidinha"- confirmou o Senhor V às suas paredes brancas. "Mas a verdade é que dependo desta salvação, como dependo das linhas verticais que se estendem para o chão logo a seguir ao alto dos telhados... e da chuva... e de alguém...e também do sol"

19 de maio de 2007

Cascorro

Era um homem que fazia amigos e usava chapéu. E isto exactamente na frequência inversa ao exposto,claro, porque certas coisas são rotina e outras coisas certas,acontecimentos.

Bem,mas diga-se assim( para ir ao previsto): o sr., o excelentíssimo homem era assim para o calado e bastava-lhe isto para agradar aos tipos que falam de mais e gostavam de pensar menos.

Bem,(antes que isto dê para o torto) o sr., o excelentíssimo homem tinha aquilo que se diz ser um feitio a dar para o constante, nada de alaridos, nada de velocidades, era um homem que é um daqueles homens aos quais a palavra tempo se aplica, sim, mas sempre de forma pendular, de forma elegante e mecânica.

E, ademais,este excelentíssimo senhor, um homem, pertencia ao grupo dos plácidos sorridentes que, como função social tem, tranquilizar os outros, os que sonham fazer tudo mas cujos grandes gestos se transformam, com penas e choradinhos, sempre em ínfimas acções.

Hmm, Era um tipo, um homem, um excelente, que não gostava lá muito de dar à língua, vista a coisa assim, mas os olhos abriam-se e fechavam-se muitas vezes enquanto as pessoas se aproximavam e isso convence pá, isso diz qualquer coisa sobre o carácter de um ser humano, é verdade.

Afinal, só as pessoas atentas têm sencilhos hábitos, como usar chapéu sem o perder. É que bem vistas as coisas, a atenção é a necessidade dos conscientes e o luxo dos felizes.