a casa de banho tinha luz,
o sol entrava divino pela janela
e o espelho, enorme , inundava
o meu corpo,
o meu corpo de fada,
o meu corpo de miss plástico
bem temperado pela mattel universo.
o meu corpo de bailarina classica
mas gorda,
enfiada em maillots de guerra pink.
E a minha voz para o espelho,
esta que só se ouve mesmo é cá dentro,
a minha voz de cantora lirica
de fabulas de encantar entoava:
a casa de banho tem luz
e o sol entra pela janela subida que dá para as traseiras
da minha escola.
disse eu ao espelho:
eis o continuo reflexo.
eis aquilo que sou quando o outro me vê.
Eis Me, quando canto.
Eu que sou eu e assim
nao posso ser mais ninguem.
estes são os contornos concretos!
estes é que são os contornos decisivos
daquilo que um dia serei.
Que fazer?
Que cara feia.
Que carnes se soltam saltam e ocupam.
Aquilo que sou, para mim, terá de ser habitado,
tanto?
E estas luminosas trocas com o reino do além serei, perdurarão?
Terei voz para fazer ouvir, direi, a alma?
Terei perna para subir ao palco?
Pé onde caiba sapato?
Mão para firmar qualquer papel?
Tudo, tanto?
E a imagem do que eu sou, para mim, terá que ser insistentemente recortada e feita palavra
ou ramo de arvore para acolher o outro animal que se aproxima
ou já sei soletrar sossego?