20 de dezembro de 2007

poema com meteorologia

uma canção de amor
começa com língua
e vai
descendo
até encontrar
os teus
braços
e semear qualquer coisa
que não sei
como se desenha,
nem em que
estação
se planta.
começa na ponta da ponta dos dedos
e não na
garganta.
planta- se
entre a unha
e a raiz,
até fazer sombra.

o húmido
segue-se
no tempo frio.
guarda-se
o amor
na luva,
o amor
já cor
de cinza.
penso:
talvez tenha
escolhido mal o solo
ou o tempo:
mas não me lembro
de ter
chovido
e não nasce nada
do
teu
corpo.

a casa de banho tinha luz,
o sol entrava divino pela janela


e o espelho, enorme , inundava
o meu corpo,


o meu corpo de fada,


o meu corpo de miss plástico
bem temperado pela mattel universo.

o meu corpo de bailarina classica
mas gorda,


enfiada em maillots de guerra pink.

E a minha voz para o espelho,


esta que só se ouve mesmo é cá dentro,


a minha voz de cantora lirica
de fabulas de encantar entoava:


a casa de banho tem luz


e o sol entra pela janela subida que dá para as traseiras


da minha escola.


disse eu ao espelho:


eis o continuo reflexo.
eis aquilo que sou quando o outro me vê.


Eis Me, quando canto.

Eu que sou eu e assim
nao posso ser mais ninguem.
estes são os contornos concretos!
estes é que são os contornos decisivos
daquilo que um dia serei.

Que fazer?


Que cara feia.


Que carnes se soltam saltam e ocupam.

Aquilo que sou, para mim, terá de ser habitado,


tanto?


E estas luminosas trocas com o reino do além serei, perdurarão?


Terei voz para fazer ouvir, direi, a alma?


Terei perna para subir ao palco?


Pé onde caiba sapato?


Mão para firmar qualquer papel?


Tudo, tanto?


E a imagem do que eu sou, para mim, terá que ser insistentemente recortada e feita palavra


ou ramo de arvore para acolher o outro animal que se aproxima


ou já sei soletrar sossego?

5 de dezembro de 2007

entrada no diário

Esta sou eu. Palavrosa até ao absurdo.Opinativa mas tolerante. consciente de que sei muito pouco sobre muita coisa como os publicitários, capaz de falar sobre os livros que não li, tenho tantas vezes razão como tantas vezes sou paranóica. nada invejosa mas querendo sempre mais e melhor para mim mas nunca querendo tirar o lugar a alguém. Avessa à estrutura de grupos, dou-me melhor com pouca gente de cada vez. Muitas vezes carente, diagnosticaram-me necessidade de afecto como maleita para a vida, dificilmente me livrarei desse pequeno defeito que deixa atenta ao detalhe, aos detalhes dos outros. Esta sou eu. Gosto de palavras. de muitas palavras de todas ditas com gentileza. dou-lhes todos os sentidos oficiais e impróprios, os exagerados também. nunca os duplos. detesto os duplos. sou atenta ofendem-me enfureço-me descanço e ponto. então e depois?