"nada vai correr mal"- disse a senhora sei lá ao espelho. bem, na verdade tanto se faz que o tenha dito ao espelho à secretária ou ao respectivo namorado o importante aqui, o que deve ser considerado e pesado para denunciarmos o carácter vivido da afirmação é o tom de voz em que a senhora sei lá, tanto faz realemtne, é um apelido estupido, pouco convicto, mas casos encontraremos em que o nome joga tão bem com a pessoa. disse- o em voz alta " nada vai correr mal" e não não sorria confiante pescoço erguido a caminho do trabalho e não não agarrava a mão do petiz choroso que tinha o seu cão de pata partida estendida na marquesa gelada do centro da sala do veterinário e não não usou aquele tom de conselho entre amantes "nada vai correr mal, é só preciso que te deixes abraçar." não, nada disto, e mais exaustivo podia ser o narrador, nada disto nada disto nada disto. Ela disse "nada vai correr mal" e estava sozinha, saiu-lhe a afirmação com a credulidade dos pobres, "não, não há mais nada que possa acontecer".
lembra-se claro da frase que apanhou escrita num livro do saramago" que a história não registe um facto não significa que esse facto não tenha ocorrido." e era isso mesmo, embora não possa fazer uma lista de factos ocorridos, uma relista de listados - "embora quem me conheça não creia nisto que eu digo, nada vai correr mal, estou vazia de coordenadas, não há átomos, não há desastres, não há nada que não tenha vivido e nada que possa repetir".
7 de abril de 2008
1 de abril de 2008
mudança
há uma caixa no centro desta minha sala
minha por mais uma ou duas noites,
sei que é minha por exclusão de partes.
a sala, que a pago, sabendo que mais ninguém o faria
e a caixa, que aberta, vai suportando as coisas
que, com o tempo que nos resta, tenta guardar.
sei que tudo isto é meu, por exclusão de partes,
ninguém habita este espaço e o gato aqui sentado
também é meu, eu dei-lhe nome, eu aproximei-me do gato.
excluindo as partes ficaremos eu e ele sentados
a ver as coisas fugirem dos seus lugares para outros
excluindo sabe-se lá o quê que deixará de acontecer
para que outras coisas ganhem forma, lugar e seu tempo.
Tudo o que habitamos, excluindo o resto, perderá
matéria, sonho, paixão, andamento, odor
e outras coisas ocuparão este centro, por exclusão de partes.
Não sei o que fica para o fim , qual o ultimo objecto a ocupar
tudo o que meu é, se é assim que o ponho.
mas sei que pessoas dançam esta noite feliz,
como se excluindo tudo, tudo fizesse um sentido novo
e é com esses que não me irei deitar
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mariana mata passos
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19:05
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aos prisioneiros politicos, aos editores dos anos 80
aos que não foram presos sabe-se lá porquê mas arriscaram
a vida a familia e os laços. aos que não puderam amar
e fugiram para que não se encontrassem em parte alguma
aos que calaram porque tinham tanto que contar
aos que ergueram a cabeça e me defenderam ainda antes de eu ter voz
aos que desconfiaram mas seguiram fazendo o que estava previsto,
definido e assim deram sentido a quem actuava
entre as barricadas do silêncio e da ansiedade
aos que foram à guerra e caçaram crendo que tudo
podia acabar, tudo. não só a censura mas o tal "mundo melhor"
com esses me deito e me levanto
ao lado desses trabalho, levanto pesos e passo recibos verdes
a honra passa de geração em geração não saltando nenhuma
porque a luta não tem fim, mas tem princípios.
--
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mariana mata passos
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19:02
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super mercado
a democracia já tem partidos políticos
e os partidos políticos mascaram as ideias
e elas ficam galantes, penduradas nas cadeiras,
como produtos de hipermercado repostos todos os dias.
dos cidadãos espera-se que passeiem de carrinho
pela assembleia, carteira no bolso,
escolham o mais vistoso que ali está
aquilo que satisfaz não a necessidade
mas o capricho colorido do acessório.
sim, alguém terá de pagar a conta.
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mariana mata passos
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19:01
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