28 de agosto de 2007

dúvida

o que é este risco? vai daqui ali.
separando o vácuo em duas coisas.

24 de agosto de 2007

" a vida é uma historieta contada por um idiota que sonha pertencer a uma banda de rock" escreveu o senhor V no seu caderninho abalando assim todos os seus leitores amantes de clássicos e poeirados livros. " custa-me compreender estes tipos de género intelectual cheios de tendências epigráficas que passam vidas a copiar e a dizer que sentem coisas que não fazem sentido. mais nos valia certamente deixarmos-nos levar pelas máximas adolescentes vive depressa e morre cedo em vez de passarmos centenas de anos a estudar coisas gágas.

13 de agosto de 2007

o sr. V e os edíficios

O Sr. V tocou à campaínha de um dos apartamentos do alto edifício América. Sou eu - disse depois de lhe terem perguntado "quem é?". Já o esperavam, reconheciam-lhe a vibração imposta ao botãozinho. Adiantou-se o porteiro,"como justificar esta fatiota de administrativo das moralidades, será que deus, tão omnipresente na terra, se veste assim nos céus?" , abriu a porta, aguardou que o Sr. V passasse e chamou o elevador.

" fico com a impressão de que sou sempre pequeno, aqui. Será esta entrada sempre tão grande que me diminua a estatura? um problema como o da alice, já que tem o lobby tantos espelhos? será a caravela dourada, ali estacionada na parede em frente, que me leva a pensar que o império acabou,e que só restam escravos? do meu tamanho? Ou será,talvez, que o tempo não queira passar enquanto a estrutura está igual?" escreveu o sr V no caderninho. "talvez possa pedir um atestado de crescimento aqui ao Sr. Teles, velho porteiro deste catita condomínio."

"um porteiro, este porteiro. um dia qualquer coisa se escreverá sobre ele"- sublinhou o sr V no seu caderninho. "a sua secretária está tão agarrada ao chão como as caixas de correio estão embutidas na parede. não será estranho ter como profissão uns escassos metros quadrados de arquitecturas premiadas que disfarçam engenharias de ponta?"

"será o porteiro pago para completar todo este décor politizado de meio do século que promete não acabar? mais pergunto, aos deuses e aos servientes entendidos, terá o teles uma profissão ou é simplesmente pago para existir, para habitar num destes apartamentos, o do último andar. Será o Teles pago para ver a alta vista sobre a belíssima cidade ou para simplesmente nos controlar e, no fim do dia, levar o lixo?"

" que diabo, para estas questões não tenho eu resposta ficcionada." pensou o SrV, saindo do elevador e cumprimentando distraído quem o esperava. "Há que, simplesmente, aceitar o passado como ele foi: a vida da geração anterior com a suas vontades e certezas e a nossa vida com as duvidas possiveis de todas as geraçoes .Aceitar isto, as diferenças e os prédios altos, nas cidades. Olá!"

11 de agosto de 2007

isilda

a mãe da isilda dizia-lhe: passo-te a mão pelos cabelos, não te esquecerás. este cabelo é igual ao meu porque tu és as minhas escolhas. passo-te a mão pelo braço. olha, repete: tu és a tua força mais a que sobrar de mim.lembra-te disto, vou-te contar uma história, dela, não te esquecerás. é a história do teu nascimento e só eu a posso contar. só eu posso dizer estes olhos, eu conheço-os. estes meus olhos não se velam para ti. foi assim, nasceste a uma terça-feira, quatro da tarde, eram férias e havia sol. levaram-me para uma cave quando eu disse que tu ias chegar. os bebés nascem ás escuras, só começam a aprender depois e é melhor assim. até respirarem sozinhos, pedirem mais ar, comida e essas coisas de bebés, devemos manter a escuridão. outra mães também lá estavam e outros bebés nasceram. deves saber que não nascemos sozinhos, para além de pai e mãe temos os colegas de maternidade, teremos colegas a vida toda, sempre, até sermos velhos e só restarem os amigos. se alguma vez conheceres algum, pela vida fora, algum adulto que tenha nascido contigo, assim perto, afasta-te. a divisão essencial entre os indivíduos dá-se aí nessa sala e naquele momento. os vossos choros separaram-se,o som iniciou o vosso espaço. acho que o destino não vos deverá querer juntar. nunca discutas com o destino, descobre-o. vou-te contar a história do teu nascimento, não te vais esquecer, não! as tuas mãos são iguais ás do teu avô. enches-me de esperanças, o teu sítio é o meu lugar. olha a tua mãe é uma sereia. tu és enorme como o mar. disse-me a parteira e tu, a partir de agora, vais te lembrar. nasceste como todos nascemos e eras grande. tinhas roscas de bebé, cinco dedos em cada mão, contados pelo teu pai, e cabelo. nasceste pronta, meu bebé,eu vi. ainda dentro de mim começaste a chorar. não sei se era amor, o que me tinhas. não sei que amor é este. a parteira disse-me "sorte, tem aqui um bebé enorme" eu já sabia. a parteira disse-me " que sorte, é um bebé com sorte, a senhora é uma senhora com sorte e acaba de fazer nascer uma menina que vai ser rainha quando for maior. disto não tenho dúvidas", disse-me a parteira: " todos os bebés que nascem a chorar já sabem para onde vão e tome aí 3 kilos e meio de bom futuro, ora esta, ainda não era gente e já queria mandar!" . perguntei-lhe o nome, isilda. agora tu promete-me não te esquecerás, mesmo quando o meu cheiro já não te possa embalar nem a minha voz nem o meu olhar... isilda, o mundo é daqueles que o querem agarrar.

4 de agosto de 2007

O Sr. V e o desprezo pelo plágio

Uma coisa que muito afligia o Sr. V era o seu caderninho vermelho, Camille . Como acontece com todas as pessoas razoáveis que gostam muito de uma coisa, tinha muito medo de o perder."as pessoas razoáveis gostam muito de muitas coisas" escreveu um dia destes " por isso, às vezes, parecem assustadas com medo de as perder. Como consequência, as pessoas ligeiramente exteriores à sua esfera íntima, tendem a defini-los como pessoas pouco atentas ás necessidades do próximo e algo alheadas da realidade comum. Self-centradas, para usar um estrangeirismo dos marquetings técnicos ou da psicologia intolerante. Pouco razoáveis, em poucas palavras."

" Não é que me preocupe com o que as pessoas ligeiramente exteriores à minha esfera pensam sobre mim. Mas vivo em sociedade e sofro de apreço pela democracia. Há aliás aqui numa destas páginas uma citação muito inteligente que me desculpa e enobrece. Aqui , não aqui, ora bolas!Sei que citei aqui e por escrito, tal e qual, uma coisa que uma fêmea bem ilustrou sobre como se comporta o génio quando os outros o classificam.Aqui, não...aqui! Ora bolas!"

Se há coisa que muito aflige o Sr. V é o seu caderninho. Tem medo de o perder,medo que o plagiem e medo que o acusem de plagiar."eu cá não plagio ninguém, nenhuma obra de outro poderá dizer o que eu quero por outras palavras. o que acontece muitas vezes é que as ideias dos outros aparecem na minha cabeça, entram pelos meus poros sensiveis e fazem clic clac. É isto."

"com os amigos passa-se exactamente o mesmo" escreveu o sr. V. " é por isso que certas conversas a dois são como um rico diálogo interior. às vezes tenho de me afastar das pessoas certas para escrever mais e não deixar que o amor aconteça. O trabalho de um escritor não é usar as palavras no ar nem dar beijos. O som faz com que tudo desapareça, o som é um momento, não é o espaço. E viva a cali grafia"

"um escritor precisa de silêncio, de alguma solidão e de um caderno. É isto! Vem nos livros. vou abrir aspas" pensou o senhor V. "e citar este pensamento no meu caderno tão riscado."

"No sossego da minha casa, algumas pessoas são mesmo boas de existir, ainda que se faça um grande esforço para as imaginar. As palavras leva-as o vento, mas as personagens não, habitam o nosso estupendo interior como quem habita uma paisagem.Todas as personagens, mais ou menos nossas, são grandes conversadoras. Dizem-nos muito se, entre os dedos, segurarmos uma atenta caneta.
Por isso sou mais da escrita que das pessoas. Mais das palavras que dos plágios, mais dos canetas que dos cadernos. "

Que mais poderia o sr. V apontar para nos garantir que é um romântico dos antigos?