26 de junho de 2007

E se um dia um estranho te abordasse na rua...

... e te convidasse para visitar o Museu Berardo?
Ou se te perguntasse, "posso tirar-te uma fotografia, és Arte."


"
PÚBLICO.PT foi ver arte às cinco da manhã
Museu Berardo: apenas alguns resistentes permaneceram até de manhã na exposição
26.06.2007 - 08h46 Sérgio B. Gomes, PUBLICO.PT

Pelas cinco da manhã, na recta final da maratona que arte contemporânea proporcionada ao longo de toda a noite passada no CCB, no novo Museu Berardo já só restavam alguns jornalistas e dois ou três resistentes que se mantinham a admirar a mostra que se estendia pelos três pisos do antigo centro de exposições do CCB.

O desafio lançado pelo CCB para a inauguração do novo Museu Berardo era inovador: manter a exposição aberta até de manhã para que todos pudessem disfrutar dos prazeres da arte contemporânea noite dentro.

Mas o entusiaasmo dos visitantes foi-se desvanecendo à medida que a noite cedia ao dia´e pelas cinco da manhã o PÚBLICO.PT constatou que já só os jornalistas permaneciam no local juntamente com não mais do que três resistentes. A organização optou mesmo por, durante a madrugada, encerrar o piso 0, dedicado ao "surrealismo e mais além" e o piso 2 do antigo centro de exposições, porque não conseguia manter a segurança.

A abertura do Museu Berardo, com uma colecção avaliada em mais de 300 milhões de euros e com obras dos maiores autores de arte contemporânea, de Warhol, a Miró, põe asism fim a uma negociação de 10 anos com joe Berardo, detentor da colecção, que agora está acessível a todos."


Novos huskies, róró e pegueira, estamos com vocês. :)


21 de junho de 2007

O sr.V e o papel de rebuçado II

Passaram-se dias desde que o Sr. V encontrou aquele papel caído à porta do metropolitano da cidade. Mas aquela frase do poeta, " A minha pátria é a língua portuguesa", usava-a ele na boca, chupava-a como um rebuçado, não o largava nem ele a largava ela, como num bom romance.
Foi então, já o namoro ia adiantado, que, exactamente no mesmo sítio, lhe estenderam mais um fasciculo de notícias das gratuitas.

E lá vinha " nossos irmãos espanholecos não sabem cantar o hino". Isto assim, em letras grandes, tamanho envergonha-o-teu-amigo-e-vencerás. "Ora esta!" pensou. "Não é que a estes aqui do lado lhes falta o poema que junta as almas díspares, mas nascidas da mesma terra, em convencida e musical comunhão? Como é que eles sabem se o vizinho, de mão ao peito, olhos postos na bandeira está a trautear canhões ou bocadillos, heróis do mar ou artelhos de chica ?"

"Como pode uma pátria ser uma pátria se não aparece escrito em lado nenhum nobre povo ou nação valente e imortal ? Não é que valentia seja requisito de fronteira e sobre a imortalidade, pois sobre a imortalidade - deixou escapar entre dentes, o Sr. V - outros se alargarão melhor que eu... Alto! Estarei a ficar gagá? Preciso é de dar um bom passeio."

Escreveu, então, no seu caderno, o Sr. V. : "Estou no alto desta falésia e ainda tenho pernas. Não estou a ir para novo. O meu sonho sempre foi cantar. Se me perguntassem qual é o meu maior desejo diria que também que já o realizei. Da minha língua vê se o Mar.Somos todos iguais."
Arrancou a folha devagarinho " Que bem que voa!", escreveu, naquela que imediatamente a substituiu.


17 de junho de 2007

o sr v e o papel em branco I

Ia o Sr. V na rua quando se deparou com um pequeno papel fotocopiado daqueles que emigrantes brasileiros distribuem à porta do metro e dos centros comerciais, no chão. "Os meus olhos e este papel estão no mesmo sitio, devia insistir em exercicios de auto confiança se não me quero esbarrar com candeeiros e outras pessoas iluminadas"pensou, olhando à sua volta.

"deixa cá ver" disse às costas o Sr. V, fazendojeitos de se baixar. " o que é isto?" "Não é que me deixe convencer por ginásticas publicitárias mas entusiasmam-me estes movimentos das palavras impressas para o povo. É sempre bom saber o que se pode escrever quando o objectivo é fazer com que as massas acreditem em nosostros. E eu,eu sou um tipo bem curioso." afirmou assim à laia de desculpa.


"Se pudesse realizar um desejo, qual seria o seu pedido?" dizia em letras grandes o papel. "Bom. Ora esta! Um desejo, só um. Hmm. Desejo que me perguntem qual é o meu maior desejo, garantindo-me á partida que, seja o que for que eu peça, o possam realizar."

"Bolas, acho que posso tentar outra vez! Sou um tipo demasiado precavido. Antes de dar um passo verifico se atei o sapato.Duas vezes. Assim, chego sempre tarde onde quer que vá. E desde criança que sou assim! Quando eu era miudo o meu maior desejo ( ah cuidado, ah atenção, aqui vai, escutem!) : quando eu era miudo, o meu maior desejo era saber cantar ou ter voz, como se diz. "

"agora, que sou velho, é que encontro este papel!" disse o sr. V, deitando o papel no caixote que estava mesmo mesmo a dois palmos do seu nariz quando levantou os olhos. " Agora que estou velho, já só gosto de cantar o hino. Não é que eu seja um tipo nacionalista, eu cá nunca gostei das proclamadas tendências bélicas do Lopes de Mendonça, com quem ainda troquei correspondência. Para dizer a verdade, sempre me quis parecer que chamar cor de rosa a um mapa... tem qualquer coisa de frou-frou. Mas adiante, é o hino da minha pátria."

"E o que é uma pátria?" pensou, tão alto que chegou a ter medo que o estivessem a ouvir." Se lhe tirar o t, é pária, que é o que eu sou, para os meus amigos. Se parafrasear o outro anarquista, é a língua portuguesa. Que bonito: A minha pátria é ser pária, em português." - escreveu, o dito senhor, no caderninho, continuando imediatamente a caminhada. Ainda lhe faltavam uns bons 20 minutos a pé para chegar ao seu destino, tirar a gabardina, descalçar os sapatos, ligar a luz, sentar-se na poltrona e começar a ler o livro novo que , hoje, tinha vivido para comprar.

15 de junho de 2007

o sr V e o hino

13 de junho de 2007

Trato-te por tu porque te conheço em privado há já algum tempo, antes até de andares nestas lides da escrita pelo teu próprio pé neste caso é mais mão, disse entre risos. Confesso que até me é estranho, como profissional, o privilégio de poder entrevistar alguém, deixa-te de coisas (risos) de entrevistar alguém(risos) que conheço tão bem e ser pago para isso ( mais risos) embora o teu livro tenha surpreendido (com dicção estudada) tanto a mim como penso que às centenas de leitores que já o compraram.

Já vai na terceira edição, não é? Sim, mas as tiragens são reduzidas. O nosso mercado é pequeno, há que dizê-lo com frontalidade.

Sim, é verdade. Mas para primeiro livro não se pode dizer que está mal! 800 exemplares vendidos. Pois. Mas diz-me foi uma surpresa, para ti, este sucesso todo à volta de uma obra com cerca de setenta páginas ? Sim e não. (risos)Explica lá isso aos nossos ouvintes.

Não, porque quando escrevo uma coisa é porque tenho a certeza de que mais pessoas pensam como eu. Primeiro vejo depois penso depois escrevo e depois, depois mostro a algumas pessoas . na verdade escrevo para essas pessoas, escrevo para as amizades, para o íntimo. E sim, fiquei surpreendido, cheguei a ter medo, porque nunca se sabe o que esperar. Há sempre um risco. muitos riscos ( risos). E há sempre fé.

O título chama a atenção. Isso também foi propositado? O título é qualquer coisa muita vezes repetida na cabeça. Já lá estava muito tempo antes de começar a escrever o livro. Dizia-o para mim muitas vezes como uma espécie de esconjuro contra o mau olhado e a preguiça. Como te disse escrever é uma questão de fé.

Falas muitas vezes em fé e tiveste uma educação católica. Posso perguntar-te se és uma pessoa religiosa? Não. Tenho poucas convicções e muitos medos. Sou uma pessoa que acredita acima de tudo em si mesma. Quando te digo que é tudo uma questão de fé aaaaaaaaaaa quero dizer que acho que quando se escreve é porque se acredita que somos melhores que aquilo que somos capazes de mostrar aos outros assim no dia-a-dia . O quotidiano tem mais olhos que ouvidos, sabes? Se tu falas mal te ouvem, as pessoas gostam é de falar e de possuir. Quando publicas és todo delas, é mais olhos mãos e nada de ouvidos (risos).

Não te interessam então esses novos audiobooks que agora estão tão na moda, isso das pessoas irem nos carros a ouvir o teu livro. Não posso dizer que não me interessa. Acho que é importante que se façam essas coisas para os cegos. Se ficássemos todos cegos, a quantidade de livros que deixaríamos de ler,de conhecimento que se perdia. As bibliotecas cheias e nada. Reduziríamos o vocabulário ao essencial, ao básico. Quero. Posso. Mando. Dá. Para escrever é importante ver e ser dono de uma cadeira.

(risos) Como esta! (risos) Obrigado por teres aceite esta entrevista. (risos) Ora essa. Foi um prazer.Os amigos são para estas coisas. Os amigos são para estas coisas.(risos) (barulho de papéis)

12 de junho de 2007

era uma vez uma terra comprida onde corriam regatos, que iam dar ao mar, e crescia uma relvinha muito boa onde se podia descansar.

era uma vez uma terra comprida onde toda a gente queria morar.

nessa terra tão boa vivia um rapaz com cabelo aos caracóis que usava sempre uma camisola vermelha feita pela avó. Era assim magrinho e alto, com uns olhos muito grandes de ver ao longe mas que ainda usava calções.

Como nessa terra ninguém tinha cabelo aos caracois toda a gente achava que o rapaz era especial e sempre que acontecia qualquer coisa lá o iam chamar.

Ora esta, pensava o rapaz enquanto se estendia ao sol. só gostam de mim porque eu tenho o cabelo assim. talvez se eu deitasse fora o telefone,me deixassem de chatear.

era uma vez e assim foi. Num dia como os outros deixou o telefone cair no regato e fingiu não reparar.

"Agora sim, posso ter sossego e passear. Vou fazer uma casinha e nunca mais vou voltar."

Começou a apanhar os pauzinhos que o regato trazia e em poucos dias construiu um t1 com caminha e fogão. Depois sentou-se no jardim a pensar na sua próxima refeição.

Quando acordou no dia seguinte tinha a casa cheia de animais. O que é isto - perguntou?
Eu sou um pato - disse o pato. Eu sou um urso - disse o urso. Eu sou um leão - disse o leão. Eu sou uma simples ovelha sozinha que precisa de companhia - disse a ovelha. (toda a gente sabe que as ovelhas tambem têm caracóis no pêlo!)

O rapaz partilhou o almoço com todos os animais e depois disse " se querem ficar por aqui vão ter de ser vocês a fazer o jantar. Organizem-se!"

"Siiiiiim, fica descansado! Podes ir passear que logo á noitinha vais ter o que papar!"

O rapaz ficou desconfiado. "eles não sabem onde estão os tachos!" Mas anuiu. "vai mesmo saber-me bem não ter de me preocupar. Afinal estes animais já são crescidos e eu quero ir para o regato brincar"

Quando chegou o fim do dia o rapaz voltou para casa. Os animais ainda não tinham chegado e ele já tinha fome. ficou escuro e não havia bolachas no armário.

"vou mas é dormir. tenho fome e não há comida Nestes animais não posso eu confiar"
Deitou-se na sua caminha com o estomago a reclamar. E como não conseguia adormecer começou a enrolar os caracois nos dedos para não pensar.

Quando o sol do dia seguinte nasceu o rapaz levantou-se para ir à procura de comida. Mas ah!! Tinha as mãos presas ao cabelo. "E agora, e agora, e agora?"- disse em voz alta. " Ainda bem que deixei a porta de casa aberta senão nem a maçaneta podia rodar!!"

Lá fora no jardim estavam todos os animais deitados num círculo. "Vêem o que fizeram?" - perguntou o rapaz aos animais.

Todos pediram desculpa e explicaram: " nós cá não sabemos fazer comida.Tentámos mas não sabíamos dos tachos, não podíamos cozinhar."

"Eu cá só sei fazer lã" - disse a ovelha. " Sou útil quando chega o Inverno"
" Cala-te" - disse o lémur. "eu só sirvo para saltar"
"Eu sou um leão, sirvo para mandar. Quando é preciso pôr animais tagarelas em silêncio...RAAAUU"

" Agora calaram-se todos, leão! Ficaram todos com medo!Vês o que fizeste, bicho mau?"

"calma - disse o urso.Nós ontem chegámos tarde e sem comida. Empoleirei-me na janela e vi o teu cabelo assim. Contei aos outros animais o que se passava e o pato disse : "organizem-se!". E A preguiça disse - "agora é que são elas. Já tenho tanta fome. Ele assim não pode cozinhar."

"Foi então que a paloma, que trabalha para o poeta neruda, apareceu" - disse o elefante que até então tinha estado de trombas.

"o teu cabelo é mágico. O poeta deu-me uma tesoura e pediu-me para cortar um dos teus caracóis. Parece que sem essa inspiração nã pode escrever mais versos de amor."

"oh!" disse o rapaz. "uma tesoura" "uma pomba" " os versos de amor".

"RAAAU" - fez o leão e os animais fizeram uma fila indiana.
"Dá cá a tesoura" - disse o lémur.
"piu piu piiiiiiiiiiu" - cantou a paloma.
" tudo em sentido" - grasnou o pato.
"ao trabalho" ordenou o urso.

E Foi assim que os animais ajudaram o rapaz dos caracóis a soltar as mãos que estavam presas às preocupações do cabelo para que ele pudesse ir à procura de comida para todos.

"agora sou livre outra vez mas já não tenho caracóis. Ainda sou especial mesmo sem caracóis? - perguntou o rapaz aos animais. mas a ovelha que também estava cabisbaixa porque conhecia a tristeza do rapaz aproximou-se e disse-lhe baixinho: " não te preocupes. Eu sei que os cabelos voltam sempre a crescer."

"obrigado , amigos" - disse o rapaz já com as mãos na massa.