18 de setembro de 2007

diário

Pensei estrear um caderno, vê como sou pateta. Começar um diário como fazem os escritores. Qualquer coisa que me lembre mais tarde, uma fonte fidedigna, chama-se. Umas quantas linhas à tardinha ou iluminadas por luz de fresta de porta ou por candeeiro a óleo daqueles antigos, tínhamos um, quando eramos antigos lá em casa. Mas optei por não começar diário nenhum. Os diários servem para escrever aquilo que se quer dizer e não se diz, coisas do coração expandido ou com crise de ofensa e eu acho, escritora, que o que não se quer dizer em voz alta menos serve para ser escrito. Estendem-se as linhas dos relatos, sem mérito, nada de exactidão, fala-se de iluminações como se o quotidiano fosse o cenário e não a coisa em si.( E o quotidiano, ora, é a ideia feita coisa.) Um diário é apenas o que existe antes da história. Que interesse poderá ter uma balela dessas? Para mim. Para os outros.

Se escrevesse um diário começava assim:

"hoje, tal tal, tal tal, estou a ler o livro não sei quê. Sinto tal que parece que tal tal. Agradeço isto e aquilo. A tais horas aconteceu o que tal tal já se sabia. Ontem adormeci com os pés frios. E acho que tal. As coisas são assim. Toda a infelicidade faz crescer mas só sabemos que somos crescidos quando estamos felizes. E que tal fique escrito. Só as crianças é que choram, os adultos fazem por imitá-las quando não sabem o que fazer. Por hoje chega, é uma situação tal estranha mas satisfatória em todos os seus limites. Há quem se sente no chão por desespero. Há quem escolha sempre o melhor chão para se sentar."