14 de fevereiro de 2008

o Sr. V pensa numa dedicatória e faz um pedido ao Nosso Senhor Pastor

Estava o Sr. V sentado num banco da noite fria, indo já a dita avançada, quando uma velha muito velha passou no terreiro que se estendia à sua frente. Trazia um avental vestido "como era uso das criadas da minha avó", escreveu no caderninho húmido. Pela trela trazia um cão, um cão pequeno e obediente, um cão com sabedoria."Os passinhos dos cães pequenos, a ligeireza com que acentam as patinhas pequenas no chão, mostram tudo o que há para saber sobre o feitio dos respectivos donos e mais ainda sobre o amor que os acima citados têm ao seu pequeno pet de estimação." Que velha tão velha. Que cão engraçado! Vejam só como ele caminha em linha recta, como leva as orelhas descontraidas, como o pêlo se balança ao ritmo da melodia certa para um passeio.
"todas as cumplicidades verdadeiras me comovem, a procura e a resposta que se encontram por acaso e se repetem, repetem esse encontro, até atingir aquele cume da discreta montanha da vida a que vulgarmente se chama felicidade. Oxalá morra primeiro a velha."





ao meu avô, que nunca viu um cão mas que chorava com tristes telenovelas

13 de fevereiro de 2008

sobre a calçada

No mundo - aquele que detesta

toda a cafeína e todos os relógios

que são mais que objectos para enfeitar

os pulsos ou coisas para decorar os corredores

longos das casas ricas onde um bater

de coração faz falta. nesse mundo

que se solta aos poucos em todos

os meus gestos bons e expectantes.

nesse mundo em que os calceteiros

são homens sérios bons (como são na realidade)

e que entre uma pausa e uma cerveja

uma passa no cigarro pensam martelemos melhor

este paralelepípedo de calcário para que nenhuma

criança aqui tropece distraída. Sim, martelemos

melhor este paralelepípedo e depois aquele outro ali.

Martelemos, martelemos para que possa a criança

caminhar distraída pensando apenas em quem

a espera na janela sobre o alem esquina. No mundo,

nesse mundo em que os calceteiros martelam

entre o cigarro a pausa a cerveja a gaja que passa.

Martelem. E nesse instante, martelam.

E mais, nesse mundo onde todos somos

exactamente aquilo que somos e quando não

o dizemos ainda assim somos compreendidos,

sem recorrer nem a pedras nem a pequenos martelos,

nesse mundo, se é que ainda me estás a ouvir, nesse mundo

em que as coisas sobre as quais podemos escrever

se estendem da mão até á calçada, caindo depois

das pontas dos dedos, abertas como as mãos abertas.

Nesse mundo em que quando amamos um escritor,

compramos uma cartolina grande e escrevemos,

a marcador grosso, conscientes do poder

da nossa opinião, o seu nome sobre a nossa vida.

Nesse mundo de onde me debruço

e onde se pode Simplesmente

e onde o que digo, enquanto for eu a dizê-lo,

sou eu que o digo. Nesse mundo, eu direi,

considerando que sei tudo aquilo de que suspeito

e suspeitando que um dia mais tarde o vou ainda

ter presente sem a mascara absurda da esperança.

Neste mundo, eu digo, eu espero tic tac

que a multidão das outras vozes apaixonadas

me traga todas as verdades (e ainda as que não servem a ninguém),

que me tragam todas as verdades

para que delas se faça o céu para esta caixa,

onde guardamos tudo o que um dia poderá vir a ser

entre uma rua e a outra rua, neste mundo.

dúvida

o que é este risco? vai daqui ali.
separando o vácuo em duas coisas.

o sr. V e a faculdade de letras

" a vida é uma historieta contada por um idiota que sonha pertencer a uma banda de rock" escreveu o senhor V no seu caderninho abalando assim todos os seus leitores amantes de clássicos e poeirados livros. " custa-me compreender estes tipos de género intelectual cheios de tendências epigráficas que passam vidas a copiar e a dizer que sentem coisas que não fazem sentido. mais nos valia certamente deixarmos-nos levar pelas máximas adolescentes vive depressa e morre cedo em vez de passarmos centenas de anos a estudar coisas gágas.

decisão

o que é este caminho?

coqueteries

A vida é uma espécie de palco. O corpo, as pancadinhas de moliére. As roupas, o subtexto, as leituras. As deixas, os objectivos. E o pano, o amor.