8 de novembro de 2007

O Sr. V e os constituintes

"Ora esta!"- disse o sr. V, com o ar de velho distraido que o faz passar por doidivanas aqui e ali. "Se eu fosse uma menina chamavam-me maluquinha de arroios. Nunca mais peguei no meu caderninho vermelho! Quase que se pode dizer que tenho uma vida ocupada, não é? Não pegar no caderninho durante mais de 15 dias, quer dizer no linguajar contemporâneo, que se é gente importante, interessante e outras coisas mais que muito valorizam a auto estima dos artistas. Mas na verdade, isto de andar a passear o rabo e a gabardine pelas livrarias tem o que se lhe diga. Bem, digamos que sou amigo do ray bradbury e tudo isto de enche de conotações intelectuais e quasi humanitárias que nos desculpam e elevam. Tive uma ideia. Avante!"

"Qual é a grande diferença entre as bibliotecas e as livrarias e porque raio prefiro eu as segundas às primeiras?" - escreveu assim em letras grandes e sublinháveis. " talvez porque nas bibliotecas os livros sejam todos de ninguém e a sua lombada grite ausência a quem passa e a quem se senta em silêncio, com um livro e um dicionário aberto, tentando aprender mais para ser melhor e, nas livrarias se converse, em voz alta e em voz baixa, e se procure com verdadeiro desejo qualquer coisa , ter qualquer coisa, mais que ser essa mesma coisa. Nas livrarias há utopias, nas bibliotecas, pó. E eu cá adoro representação e o meu chapéu cubano."

"Nas livrarias há gente que trabalha, arruma livros, oferece soluções, sua as camisolas e diz que sim. Nas bibliotecas há senhoras saia- casaco que dizem "aguarde aqui", os livros têm fichas, números e cotas e um lugar de habitação pré-definido, quer-se tudo no lugar como nos motores dos automoveis, para que funcione."

"Devo pensar nisto, a diferença real que há entre livrarias e bibliotecas não é igual, ou pelo menos idêntica, que eu não percebo nada de lógica, à que existe entre o que fica escrito na Constituição de uma República e ao que se debita legalmente, depois, nas leis de um país?"

"São ou não são as nossas novas livrarias uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa?" - Escreveu o Sr. V, cheio de esperança, boa vontade e novos ideais, antes de sair daquele cubiculo onde estava e lançar-se à vida, a do quotidiano, como convém.

Sem comentários: